terça-feira, 21 de julho de 2009

A 3 velocidades


Tendo em conta o que escrevi ontem sobre a agilidade com os processos decorrem em Angola, é possível que com o post de hoje eu vos pareça incoerente.

Quando cheguei a Angola, trabalhava 10 a 11 horas por dia, 7 dias por semana. Emagreci, enervei-me, ouvi família, amigos e colegas a trazer-me à razão. Cansado de estar a 200% num país onde a maior parte das pessoas não quer estar nem a 50%, fui reduzindo gradualmente o ritmo para níveis normais, ainda acima da média, mas sem esquecer que antes do trabalho está a saúde.

Há algumas semanas ri-me com imensa satisfação quando li uma opinião tuga, segundo a qual um comercial tem de ter o telemóvel ligado 24 horas por dia, 7 dias por semana. Ridículo, estúpido, e tremendamente absurdo. Não há situação absolutamente nenhuma que justifique esta disponibilidade. Deixem-se de cenários hollywoodescos: as empresas e organismos públicos da vida real não são a CTU nem os seus intervenientes são Jack Bauers. E mesmo o outro tuga que há uns meses estava todo vaidoso a mostrar-me o iPhone com o qual podia responder a mails do trabalho a qualquer hora do dia, por mais que uma vez demorou dias a responder aos meus. Isto de dizer que se faz é muito giro, cumprir é que é lixado…

Ontem, à hora de jantar, recebi 5 telefonemas no telemóvel do trabalho. Recusei-me a atender. Podia estar a ver televisão, a fazer o chamado amor, ou a fazer uma banalidade qualquer como cortar as unhas dos pés, era um direito meu. Era o meu horário de descanso, caramba. Esta manhã, às 7h30, começou mais uma série de 5. Devolvi a chamada quando cheguei à empresa. Era um estrangeiro em Luanda (obviamente!), que precisava de um documento com urgência (claro!). Mas de onde é que esta alminha tirou a ideia que eu lhe ia arranjar o documento entre as oito e as nove da noite?! E mesmo que o fizesse, o que raio ia ele adiantar àquela hora?!

Num país onde eu e os meus colegas temos envelhecido a tentar, durante as horas normais de trabalho, que os locais nos deixem de levantar entraves, e onde situações que deviam resolver-se numa semana se arrastam durante meses (chegou ontem ao escritório uma encomenda paga em DEZEMBRO, o que é completamente inconcebível!!!), há quem nos cobre soluções a horas que, perdoem-me a repetição do adjectivo, são absurdas.

Ou, como nos disse o nosso antecessor quando chegámos: aqui, o que é urgente demora imenso tempo, e o que não é urgente demora uma eternidade. Mas quando te pedem uma coisa, é para há três meses atrás.

Esta terra pifa os fusíveis à malta.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Um futuro brilhante


Num banco (cujo nome não vou dizer).
O meu colega, depois de esperar a sua vez na fila: - Bom dia. Venho pagar a televisão por satélite.
[NDR: e começarem a permitir o pagamento desta treta por ATM, hein? Isso é que era!]
Funcionário do banco: - Não vai ser possível, acabaram-se os impressos da DSTV.
O meu colega: - Então e agora?
Funcionário do banco: - Volte cá amanhã.

Noutro banco (cujo nome também não vou dizer).
Nós: - Bom dia. O nosso cartão multicaixa expirou a validade, vínhamos pedir um novo.
[NDR: e começarem a enviar o cartão por correio? Ah, espera, para isso era preciso que os correios funcionassem.]
Funcionária do banco: - Não vai ser possível, acabaram-se os cartões.
Nós: - Então e agora?
Funcionária do banco: - Voltem cá amanhã.

Numa companhia de seguros (cujo nome... adivinhem).
O meu colega: - Bom dia. Venho buscar o recibo da apólice do seguro da viatura da empresa.
[NDR: e aceitarem pagamento por ATM e emitirem o recibo no momento? já nem falo em enviarem por carta]
Funcionário da companhia de seguros: - Não vai ser possível, o chefe não está.
O meu colega: - Como, não vai ser possível?
Funcionário da companhia de seguros: - O chefe viajou.
O meu colega: - Então e não há mais ninguém aqui que possa emitir um simples recibo?
Funcionário da companhia de seguros: - Não, tem de ser o chefe, e ele está incomodado.
O meu colega: - Então mas viajou ou está doente?
Funcionário da companhia de seguros: - Não sei, mas é melhor vir cá amanhã.

Numa qualquer repartição pública:
- Bom dia, eu venho tratar de um assunto qualquer.
- Não vai ser possível, porque lhe falta o comprovativo, a declaração, a fotocópia autenticada da certidão, ou o chefe foi almoçar.
- Mas são 10 da manhã.
- Então volte amanhã.

Está visto que tudo vai ser resolvido amanhã. Auguro um futuro brilhante. A produtividade só pode aumentar.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Cacimbo... ou fim do estado de graça?


Nas minhas últimas férias, logo um ou dois dias depois de chegar a Portugal, surgiu-me a ideia de aparecer de surpresa na loja do nosso amigo Lopes. Foi também a oportunidade para reencontrar a mãe dele, que já não me via há mais de um ano, e me recebeu como nos recebem as mães dos nossos amigos quando nos reencontramos após uma longa temporada, sobretudo se nos mudamos para longe.

- Então filho? Como é que estás? Estás a adaptar-te lá a Angola?
- Bem... cada vez menos...

A minha confissão arrancou umas gargalhadas, mas era a mais pura das verdades. Há uns tempos atrás, a M.Jo atribuiu ao tecto encoberto e cinzento do cacimbo, os olhos “menos optimistas” com que o Afonso e o Júnior têm visto Angola recentemente. É uma visão poética, mas a realidade é mais fria, à semelhança do que o João Marcelo conta de Cabo Verde: passado o efeito novidade, dilui-se a tolerância quanto aos vícios desta sociedade tão diferente.

O problema não está nos polícias a inventarem os pretextos mais mirabolantes para se fazerem à gasosa; não está na espera desesperante pela chegada de equipamentos para as empresas; nem no gajo que vem na contramão a furar a fila de trânsito e de quem temos de nos desviar; nem na terceira substituição desnecessária do separador central da Avenida Revolução de Outubro em apenas um ano; nem nas obras de saneamento que cortam uma rua durante dois meses e que a deixaram na mesma com água dia-sim-dia-não, piso em terra e ainda acrescentaram três caixas de visita sem tampa; nem na péssima relação qualidade/preço prestada pela maior parte dos fornecedores de serviços. No fundo, é uma soma disto tudo e mais algumas coisas.

Não faltará quem sugira que ninguém está aqui obrigado e que o regresso ao país de origem é sempre uma opção. E, de facto, mais cedo ou mais tarde, o desfecho para a maior parte dos estrangeiros acaba por ser este. Existem excepções, obviamente, como a do português na casa dos 50, que se sente mais em casa em Angola do que em Portugal. Isto, apesar de um dia, há 15 anos, ter chegado com alguns colegas a uma casa na província, e ter encontrado dois ovos e nenhum sítio onde comprar mantimentos.

Quem voltar a casa depois de uma temporada em Angola terá a sensação de que cumpriu o seu dever o melhor possível, recebeu a sua recompensa, e regressará para a realidade em que formou a sua personalidade e a que está habituado. Quem fica, poderá ter estádios novos (se ficarem concluídos a tempo), arranha-céus novos, mas o dia-a-dia continuará o mesmo por mais umas décadas.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

A s(h)aga do xixi


Uma semana perfeitamente normal...

> 6ª feira, 12 de Junho

Deixámos de poder usar as duas sanitas da única casa-de-banho da empresa, porque o esgoto está entupido. O imóvel, cuja cave nos está arrendada, pertence a um organismo público, ao qual nos queixámos. O director está fora da província, e o responsável na sua ausência está demasiado ocupado para tomar conta da ocorrência, adiando a visita para 2ª feira. Até a situação estar resolvida, deixa-nos usar as casas de banho do andar de cima, que pertence ao mesmo organismo. Como a cavalo emprestado não se olha o dente, fiz por ignorar o aspecto pouco asseado daquelas instalações de recurso, mas os nossos colaboradores angolanos dispensaram a oferta: os homens preferiram o contacto com a natureza, num muro no quintal com um mínimo de privacidade, as senhoras passaram o dia a contorcer-se na cadeira com dores na bexiga.

> 2ª feira, 15 de Junho

O substituto do director desceu ao nosso andar, viu a casa-de-banho, opinou que será necessário abrir uma caixa de visita no nosso escritório para desentupir o esgoto, e voltou para os seus afazeres inadiáveis, sem dizer quem se mexeria para resolver o problema (o proprietário ou o inquilino), e muito menos quando. Disse apenas que as despesas serão por conta do inquilino, como em qualquer situação de arrendamentos de imóveis.

E eu acrescento: em arrendamentos de imóveis, e em qualquer situação em que fulano é prejudicado e beltrano seria responsável. Se beltrano não é prejudicado, o problema não é dele, e assim nasce a a «Teoria Angolana de Resolução de Problemas».

A dona da nossa empresa, angolana que conhece metade da população e não tem paciência para a pachorrice da outra metade, agarrou num dos seus três telemóveis e em minutos tinha agendado a visita de uma empresa para as 8 horas da manhã seguinte, frisando a necessidade de trazer picaretas.

As senhoras continuam a dançar, nas cadeiras, a dança do xixi.

> 3ª feira, 16 de Junho

A equipa de desentupimento foi até bastante pontual para os padrões angolanos... chegou às 10 e picos. Só não trouxeram as picaretas. Opinaram que a caixa de visita das sanitas não estaria no interior do edifício, mas nas imediações. Lá andaram meia-hora para trás e para a frente, com o responsável-na-ausência-do-director, abriram as caixas no exterior, e concluíram que não eram as que interessavam. As atenções voltaram a centrar-se na caixa do interior. A equipa, sem picaretas, foi-se embora sem ter resolvido nada.

Encontraram-se uns homens para abrir a caixa de visita. Afinal não era aquela, toca a tapá-la outra vez. Onde estão as plantas de infra-estruturas do edifício? No cofre do gabinete do director, que está ausente de Luanda.

Tentámos então usar soda cáustica. Não resolveu.

As senhoras da empresa continuam a dançar, nas cadeiras, a dança do xixi.

> 4ª feira, 17 de Junho

A dona da empresa contactou o director do organismo proprietário do edifício, que entretanto regressou a Luanda mas estava numa conferência, por isso não podia falar no momento. Ficou de lhe devolver a chamada quando pudesse. Obviamente não o fez,... Mas, já de regresso ao gabinete, lá abriu o cofre para nos ceder as plantas. São apenas os esquemas de paredes, sem as canalizações, iguais às que tínhamos em nosso poder. Deixem-me frisar bem: um organismo público proprietário de um imóvel não sabe onde estão as plantas de infra-estruturas do mesmo. Impressionante? Não, normalíssimo.

Arranjaram-se dois rapazes para outra abordagem: desmontar as sanitas e enfiar cabos de aço pelos canos, tentando empurrar os detritos que estivessem a provocar o entupimento. Não resultou. Sugeriram tirar-se um azulejo da casa-de-banho e voltar a tentar com o cabo. Não resultou. E ainda abrir num terceiro ponto do escritório, em plena sala de reuniões. O resultado foi... já se sabe.

Como a dona da empresa tem outros negócios, as suas passagens pelo nosso escritório são na melhor das hipóteses semanais, e nunca muito demoradas. A segunda gerente está de licença de parto, logo a direcção tem estado entregue a mim. Eu, que sou técnico por convicção e comercial por necessidade, desde que este fado começou sou interrompido de 30 em 30 minutos para tomar decisões sobre canos. Tem dado para trabalhar imenso...

E adivinhem qual é a dança que está no top da nossa pista!

> 5ª feira, 18 de Junho

Visto que, se depender do proprietário do imóvel, irão passar-se semanas até podermos voltar a usar as sanitas, optei por uma abordagem diferente: já que não há uma solução para o problema, ao menos minimizo as consequências. Isto é, consultei a sócia maioritária para adquirirmos uma casa-de-banho “portátil”, daquelas que costuma haver nas obras, e dar um ar mais digno às escapadelas para o quintal.

Ok, luz verde. Deu ordem ao nosso motorista que contactasse um fornecedor. Contactou-se um, dois, três, sei lá quantos. Não têm e não sabem quem mais poderá ter.

E pronto, amanhã de manhã completa-se uma semana sem casa de banho numa empresa cuja filosofia é bastante diferente do laissez faire, laissez passer nacional, mas que está condicionada pelo ambiente. Uma semana em que, apesar de todas as tentativas e iniciativas, não se conseguiu resolver pôrra nenhuma. E isto é apenas uma imagem muito pequena do novelo de chatices e complicações em que estão enredados uns quantos milhões de pessoas neste quadrado, uns por má vontade dos outros.

Quando situações desta natureza acontecem, dá vontade de inverter o sentido da Teoria Angolana de Resolução de Problemas (os esgotos do edifício têm problemas? Que tal mudarmo-nos para outro escritório e deixar o proprietário do primeiro com os esgotos por reparar e ainda com o bónus de 3 buracos mal tapados?). Infelizmente não é solução, porque em qualquer imóvel desta cidade haverá problemas de manutenção, necessidade de obras que em qualquer outra parte do mundo seriam banais mas que aqui são uma dor de cabeça, com pessoal não qualificado que improvisa constantemente, material que demora horas ou mesmo dias para aparecer, etc. A única excepção são, talvez, os edifícios de escritórios modernaços e (ainda mais) caros. Os que não são feitos por chineses, claro.

Quanto às cenas dos próximos capítulos, posso assegurar-vos que não as vamos perder. Não temos escolha.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Não há dinheiro, não há palhaços


Ao longo de um ano, já perdemos a conta às vezes que ouvimos apregoar que Angola é um país rico, porque tem petróleo e diamantes. Será que neste momento o é?

Quase 3/5 do Produto Interno Bruto angolano assenta nestas indústrias. Mais precisamente 58% no petróleo e 1.5% nos diamantes. Isto é: os melhores amigos das raparigas são um chão que já deu uvas. Acabaram. Period.

Já o petróleo... tem aquela coisa chata das cotações variáveis. O ano passado chegou a roçar os 150 USD por barril, e o PIB cresceu uns impressionantes 16% relativamente ao exercício anterior. À boa maneira mwangolé, fizeram-se previsões optimistas, nas quais o Orçamento de Estado para 2009 se baseava. Azar do caraças, o preço do barril de crude desceu até pouco mais de um terço daquele valor recorde, e não parece estar a recuperar com grande agilidade. O FMI estima agora que o “crescimento económico” angolano em 2009 seja de… -3%!

No último mês ocorreu uma sucessão de factos curiosos. Primeiro, uma dança de cadeiras no Banco Nacional de Angola. A seguir, de um dia para o outro o câmbio Dólar – Kwanza variou de 75 para 82, para uma semana depois voltar a 75, e poucos dias mais tarde para 78. Quando estabilizou, reparou-se que à custa de transacções feitas neste período, as reservas do país tinham diminuído em 4 mil milhões de dólares. Com as finanças periclitantes como já não se via há anos, a partir de meados de Maio as transferências para o exterior ficaram limitadas a 5000 USD mensais por conta bancária. Segunda uma fonte ligada ao BIC, este limite já estava previsto por lei desde 1998, mas não era aplicado por laxismo. No Aeroporto, o limite baixou de 15’000 USD para 10’000 USD, com a garantia de revista para toda a gente.

A esta hora, um pouco por toda a Angola, grande parte dos 100’000 portugueses e mais uns quantos brasileiros (isto é, os que recebem cá) estão, com as respectivas entidades patronais, a desenrascar uma forma de contornar este problema. As regras em Angola são assim: são desencantadas de um dia para o outro, atropelam direitos, e logo os prejudicados dão corda aos neurónios à procura de uma forma de não o serem.

Há três desfechos possíveis para este episódio: ou se encontra a tal solução em cima do joelho, ou o BNA e revoga a sua medida ou, numa dúzia de semanas, uma fatia considerável da mão-de-obra qualificada estrangeira antecipará em massa o regresso a casa, pondo em causa a «reconstrução nacional». Como dizia o outro, «não há dinheiro, não há palhaços».

sábado, 30 de maio de 2009

Um passado quê?!


Recentemente a imprensa anunciou uma notícia positiva para a TAAG: os manuais dos aviões estão prestes a chegar e, com isto, em breve será retirada da lista negra das companhias aéreas, o que a permitirá voltar a operar directamente para a Europa. Imagino o que estão a pensar: «O quê, aqueles gajos não tinham os manuais dos próprios aviões?». Pois é, alguém os perdeu... Hilariante, não?

Durante estes dois anos, as ligações de Luanda para Lisboa e Paris foram realizadas nos Boeing 747-400 da South Africa Airways, pilotados por comandantes sul-africanos e com tripulações mista das duas companhias. Como não têm caído, decidimos experimentar. Quem não experimenta, não tem grande autoridade moral para fazer avaliações.

A primeira constatação é que o esquema de venda de bilhetes continua o mesmo. Não basta pagar a viagem, é obrigatório confirmar a intenção de usufruir da mesma 72 horas antes da partida, caso contrário a companhia considera que o cliente desistiu e vende o lugar a quem aparecer. Se, na hora de embarcar, ambos reclamarem os seus direitos, o primeiro comprador fica em terra. Ora aí está a prestação de serviços em Angola no seu melhor. Qualquer empresa europeia, com a concorrência a nivelar a qualidade por cima, consideraria que à primeira escandaleira de overbooking teria a imagem maculada. Mas, pelos vistos, por cá não é preciso haver grandes preocupações em fidelizar clientes.

A bordo, continuamos a não resistir a fazer comparações (se não era suposto, desculpem qualquer coisinha). O facto de metade da tripulação ser sul-africana não serve de justificação para que só saibam dizer duas palavras em português, «frango» e «pêche». Que diabo, numa ligação entre dois países lusófonos não devia ser necessário os passageiros bilingues servirem de tradutores! Uma ida ao WC evidencia um pouco mais a negligência com que os clientes da companhia são tratados: em quatro viagens (eu e a Paula viajámos em dias diferentes), por duas vezes não havia sabonete e noutra não havia água. As cadeiras desengonçadas e as avarias no sistema de video são os aspectos mais irrelevantes.

Depois, há os episódios que não acontecem todos os dias, que podem acontecer em qualquer companhia, mas que dependendo da frequência e do profissionalismo (ou da falta dele) podem arrasar ainda mais uma imagem. Na véspera de regressar a Angola, fui avisado por telefone que a partida seria adiada das 11 para as 19, mas que era conveniente estar no aeroporto quatro horas antes. Como a chamada não tinha identificação e já ouvi muitos rumores sobre gasosas para passageiros de última hora ocuparem o lugar de passageiros confirmados, pedi o nome à funcionária, recebendo como resposta o som inequívoco de um telefone desligado na cara. Lá confirmei no site da ANA que não era peta, mas no dia da viagem apanhei uma seca até às 21, hora a que o avião realmente partiu. Quando soube que, em certa viagem, um compatriota esteve 4 horas à espera que fosse resolvida uma fuga de gasolina, sem que os passageiros fossem retirados do avião, concluí que uma coisa é falta de profissionalismo, outra é irresponsabilidade, e decidi que a experiência TAAG / SAA, da minha parte, não será repetida, e se não aconteceu nenhum acidente até agora foi porque não calhou. Por alguma razão o preço é inferior ao da TAP. Quem quer qualidade, paga-a.

Mas, para baralhar esta conclusão de que o preço é directamente proporcional à qualidade, semanas depois deparámo-nos com uma nova manchete da imprensa nacional, que espero que estimule a vossa galhofa:

«O coordenador adjunto da comissão de refundação da TAAG, Rui Carreira, anunciou, durante uma conferência de imprensa, que a companhia de bandeira vai incrementar em 50 por cento o preço dos bilhetes de passagem dos vôos nacionais e internacionais, no quadro das medidas de relançamento da transportadora e que visa retirá-la da situação deficitária em que se encontra.

[...]

O bilhete para a classe económica de ida e volta para Lisboa, que custa actualmente mil 408 dólares, irá subir para dois mil 112 dólares.

[...]

A comissão concluiu que a TAAG praticava tarifas mais baratas em comparação com outras companhias concorrentes (rotas internacionais) que fazem o mesmo trajecto. Rui Carreira esclareceu, no entanto, que isto será feito no quadro de uma gestão dinâmica.

“Este aumento não será feito de forma linear, nalguns casos os bilhetes poderão ser mais baratos pois, quanto mais próximo da data da viagem for comprado mais caro será o bilhete”, frisou o piloto que aconselha a uma planificação atempada das viagens.
»

A TAP agradece. A sério! A transportadora portuguesa tem viagens a partir de 1485 €, 2000 USD. E depois da viagem estar paga não é preciso telefonar para não perdermos o lugar. E há sempre água e sabão nas casas-de-banho. E as cadeiras não estão desengonçadas. E o sistema de video funciona. E dão-nos a ementa no início da viagem.

Mas continuaram a ler?

«Esta é só uma das muitas medidas que a companhia vai implementar para concretizar o lema “TAAG, um passado que nos orgulha, um futuro brilhante”.»

Perdão?! Um passado quê?! Então e os manuais, e a black-list? Ai, a minha barriga...

sexta-feira, 20 de março de 2009

Quem criou o mundo...


Depois de anos a ser referida nos telejornais por causa da guerra, Angola tem sido notícia por motivos mais alegres: em Setembro, as eleições; a semana passada, a visita do PR angolano a Portugal (que permitiu realçar o crescimento exponencial das relações económicas entre os dois países); daqui a 10 meses, o campeonato africano de futebol. Mas, esta semana, o tema de todas as conversas é a visita de Bento XVI.

Compreendo o entusiasmo dos católicos angolanos, até porque me lembro de ver o mesmo em relação a João Paulo II quando visitou Lisboa e Fátima há uns anos. Confesso que tenho algum cepticismo quanto aos frutos destas visitas. O cortejo papal não irá atravessar pelos buracos, esgotos a céu aberto e miséria do Prenda; mesmo que passe ao lado do São Paulo, provavelmente Ratzinger, dentro do papamóvel, não irá presenciar nenhum assalto; mesmo que veja algo que lhe desagrade, não sei se cometerá a "indelicadeza" de fazer reparos em voz alta; e mesmo que os faça com toda a diplomacia, duvido que alguma coisa mude no dia seguinte à sua partida. Serão apenas 4 dias para os fieis mais devotos recordarem, e para os menos praticantes ficarem um pouco mais orgulhosos da sua pátria. Os mais iludidos, porventura, ficarão ainda mais certos que essa pátria está no centro do mundo...

Tenho só a agradecer ao Governo Angolano a tolerância de ponto decretada para esta sexta-feira para todos os trabalhadores, inclusive os das empresas privadas. Com o tráfego aéreo condicionado em Luanda entre as 7 e as 12, e a histeria colectiva em torno da chegada do Papa, prevejo que o Inferno rodoviário quebre todos os recordes de que há memória e exceda as piores expectativas. Querem que vos diga quem é não vai pôr o traseiro no carro até que a confusão passe?

Para terminar e descontrair, proponho um jogo, um cruzamento de Trivial Porsuit com Totobola. Usemos o 1 para Sim, o 2 para Não e o X para Nim (usem as apostas múltiplas que quiserem). Cá vão as "Perguntas para Queijinho":
1 - Será que no Aeroporto vai ter vários funcionários desconfiados a inspeccionar-lhe o passaporte e a querer meter-lhe a mala no raio X, na esperança de sacar uma gasosa?
2 - Será que durante aquelas horas em que toda a gente no 4 de Fevereiro vai estar em alvoroço, os guardas da porta de saída vão fingir que não vêem quando os desocupados profissionais tentam entrar para sacar uns dólares a quem acaba de chegar?
3 - E depois de ter deixado o Aeroporto, voltará tudo ao normal?
4 - Será que vai passar aqui na rua? Então cuidado com o buraco que as chuvas de segunda-feira abriram na estrada arranjadinha há meio ano (espectáculo, ainda aguentou bastante!). Ah, não deve passar, nesta rua não pintaram as faixas na estrada nem as fachadas das casas...
5 - Será que Ratzinger vai comer funge na 6ª, no sábado, no domingo e na 2ª, como grande parte dos angolanos, uns porque gostam e outros por falta de alternativa?
6 - E acompanhará com Cuca?
7 - Se precisar de cuidados médicos, será que a ambulância vai circular mais devagar do que um peão, porque nenhum automobilista facilita meio metro para ela passar?
8 - E, nas urgências, estará uma boa meia-dúzia de horas à espera?
9 - Será que o papamobile vai ser mandado encostar numa operação stop?
10 - Se chover, será que Ratzinger se vai molhar até aos joelhos ao sair do carro?
11 - Será que foram distribuídos mais convites para os eventos destes dias do que a capacidade dos locais que os vão acolher?
12 - Será que o critério de entrada vai ser o de quem é mais VIP ou tem a carteira mais gorda?
13 - Teria Ratzinger a coragem de pôr o pé no mar ao largo da Ilha de Luanda? (eu não teria, pôrra!)