sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Votamento


As urnas acabaram de fechar há pouco. Dezasseis anos depois, Angola voltou a votar. Grande parte já nem se lembra bem como era e para quem tem menos de 34 anos foi uma estreia absoluta. A ansiedade do povo poderá ser comparada à que se viveu em Portugal em 1975. É certo que a espera dos portugueses foi maior, mas durante a os angolanos metade do país estava em guerra e outra metade no marasmo.

À semelhança do que acontece em qualquer parte do mundo, ano de eleições é ano de inaugurações. Inauguraram-se escolas, hospitais, um supermercado (sim, leram bem, um supermercado, e fica o registo noticioso: JES comprou uma cesta de 14 produtos e pagou 4500 Kwanzas. Ainda bem que os repórteres estão sempre em cima do acontecimento...) e, como não podia deixar de ser, inaugararam-se obras. A mensagem a passar foi «já fizemos isto, iniciámos aquilo, e se nos derem o vosso voto (de confiança) vamos fazer mais aqueloutro».

Ao longo dos anos brotou, como uma colónia de fungos, quase uma centena de partidos. A maior parte deles chegou a 2008 com a expressão de uma associação de moradores e, separado o trigo do joio, apenas 14 foram autorizados ir a votos. Apesar de todos os que sobraram terem recebido o mesmo subsídio do Estado para a campanha, dão-se alvíssaras a quem tiver encontrado propaganda dos partidos mais pequenos.



A propaganda foi bastante diferente daquela a que estamos habituados. "Lençois" de papel com imagens trabalhadas em Photoshop e slogans criados por publicitários, são raros, só o MPLA tem.



Cartazes colados nos muros, à espera que alguém os rasgue, também foram em número bem menor do que se vê na tugalândia (e ainda bem, só contribuem para a lixeirada).



Independentemente das convicções partidárias, parece ser unânime que a aproximação das eleições foi pelo menos um excelente pretexto para aplicar um pouco de maquilhagem na cidade. Um viaduto e os prédios que ligam o aeroporto à zona dos hoteis ganharam umas demãos de tinta que os rejuvenesceram umas décadas.



E as ruas e postes da cidade viram os seus tons mortiços cor-de-terra disfarçados por panos amarelos, vermelhos e pretos, cores da bandeira nacional. Ou seriam da bandeira do éme-pê-éle-á? Hmm... É que, por uma daquelas coincidências surpreendentes que a vida tem (not), as cores são as mesmas.



A UNITA parecia adormecida, mas surgiu na última semana pendurando bandeiras maiores que as da concorrência, e forrando as árvores com as suas cores.



À medida que a contagem decrescente se aproximava do fim, àparte o combate de argumentos e de pontos de vista políticos (que, mesmo ao nível popular, raramente registou atritos dignos de nota), os dois principais partidos dividiram a decoração das ruas da cidade. E assim, Luanda vestiu-se de gala para, como se ouvia hoje numa rádio, fazer o "votamento".




Mas chega de falar do folclore. O acto eleitoral propriamente dito, como já foi noticiado, teve uns contratempos. Comecemos pelo princípio: distribuir os eleitores pela assembleia de voto mais próxima da sua residência oficial, como se faz em Pt, aqui não funciona, porque a maior parte da população tem "residências oficiosas". Isto é, como os "nossos meninos" lá da empresa dizem, o angolano para fazer uma casa é tramado, basta ter uns tijolos, não interessam os papéis. A Comissão Nacional Eleitoral entendeu que, com comunicação wireless entre assembleias e pintando o dedo de quem concluia o seu dever cívico, estavam asseguradas as condições para permitir ao povo votar onde quisesse. O problema foi o material. Houve mesas de voto cujos boletins já se tinham esgotado 3 horas após a abertura das urnas, devido à afluência acima do previsto. E a situação mais difícil de explicar e aceitar foi que, noutras assembleias, as urnas, cadernos e boletins chegaram com atraso, situação que em Pt acontece pontualmente numa aldeia perdida na serra.

Aqui ao pé de casa, no centro da cidade, local onde trabalha muita gente e provavelmente muitos se recensearam, mas sem grande densidade de moradores, tudo ocorreu naturalmente. Hoje houve tolerância de ponto, por isso não houve correntes de gente a caminho dos escritórios.


Assembleia de voto no Largo Serpa Pinto, aqui nas Ingombotas.

A CNE anunciou, a meio do dia, que em vez de se encerrarem as urnas às 18, como previsto, só encerrariam quando não houvesse mais eleitores a quererem votar. Houve quem questionasse a legitimidade da CNE para tomar uma decisão à margem da constituição. A verdade é que as urnas acabaram por encerrar às 20, sem que toda a gente tivesse votado, e a UNITA já reinvidicou a repetição das eleições.

E os ânimos populares? Bem, é certo que falta esperar pelas reacções aos resultados (que, em 1992, foram o pretexto para os conflitos), mas pelo menos para já quase todos os angolanos pareciam fazer questão em usufruir deste 5 de Setembro de um modo diferente dos outros dias. Sem stress, mas com emoção. Um jornalista de exteriores da Rádio Eclésia, chamado pelos colegas dos estúdios para intervir em directo, não resistiu a começar a reportagem anunciando «senhores ouvintes, primeiro que tudo deixem que vos diga como estou feliz, pois acabei de exercer o meu direito de voto».

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Arte II


Uma das várias diferenças que saltam à vista entre Portugal e Angola é que, aqui, ainda não há cadeias de megastores a dominarem sectores de actividade. Esqueçam os 2 supermercados Pingo Doce por freguesia (apesar do JES ser sócio, cá não há nenhum) e as dezenas de lojas Moviflor (há uma) e Worten. Contentem-se com a mercearia ou a loja do mestre marceneiro. E, outro pormenor engraçado (quando não nos calha a nós): os representantes das marcas automóveis têm tamanha ruptura de stock de peças, que um simples vidro ou um farol traseiro pode não ter estimativa de data de chegada ou sequer de preço! É aí que surge a figura da loja de peças genuínas para automóveis. Se são genuinamente novas, ou se o genuíno dono autorizou a sua venda, já é outro assunto.

E o que é que isto tem a ver com Arte? Porque é que o título deste post é Arte II? Simples. Havendo uma infinidade de pequenos negócios, não se encontram pela rua muitos outdoors (só os do sector bancário, de condomínios, de marcas automóveis, de bebidas e os do émepê-éle-á) nem reclamos luminosos. Para este comércio de bairro, quase basta um cartão e uma caneta, e o mais sofisticado que podem aspirar em termos de publicidade, é terem a fachada do estabelecimento decorada pela mão e pelo pincel de um mestre.



Leite em pó, papas, óleo de palma, arroz, insecticida...


Radiadores, faróis, correias, vidros, discos de embraiagem...


Televisores, aparelhos de ar-condicionado, fogões, frigoríficos, máquinas de lavar, mobílias de quarto e de sala... Pera lá, isto é a Conforama!!!


Preciso mesmo de dizer o que se vende aqui? Gelo!


Ainda não encontrámos da Eka nem da Sambila.


Reparações.


Tabacaria. Será que também se vende A Bola e se regista o Euromilhões?


Dei por mim a lembrar-me dos murais políticos que via por Lisboa quando era puto, na sobretudo na primeira metade da década de ’80 (como um do PCTP-MRPP no muro do IST, entretanto pintado de beje...), ou de outro de ’99, em homenagem ao povo de Timor Lorosae, perto da Embaixada do EUA em Lisboa (também destruído porque alguém se lembrou borrar aquilo com uma cor ranhosa).

Imagino que daqui a 10-20 anos esta arte publicitária também desapareça das paredes das pequenas lojas dos arredores de Luanda. O que é pena, porque ainda dão alguma alegria a uma cidade cujas cores dominantes são o cinzento-cimento dos musseques, e a cor-de-prédio-que-não-vê-tinta-há-34-anos.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Arte


Um dos pontos de passagem obrigatória para os “pulas” a trabalhar em Luanda é o Mercado de Arte, ao sul do Futungo de Belas. Está dividido em duas alas: a do artesanato de diferentes tamanhos, em pau preto ou pau rosa, de pais e mães (com ou sem filhos na barriga e nas costas), pensadores, elefantes, girafas, palancas e um ou outro rinocerante; e a das telas pintadas a tinta de óleo ou de areia, em tons verdes, azuis, rosa ou cor-de-cobre, onde dominam novamente as mães, as paisagens à beira-mar com cubatas entre palmeiras e embondeiros, ou o embondeiro solitário.


Telas em exposição. Ainda vamos gastar aqui uns kwanzas...


Mal começamos a percorrer os corredores entre as bancas de venda, somos convidados a ver os trabalhos do primeiro mestre (ou familiar de mestre), perante o olhar dos outros, que esperam por uma oportunidade para nos mostrarem também a sua obra. Claro que os preços para branco são inflaccionados. Mas, ao nosso primeiro queixume, o vendedor rapidamente nos sossega que aquele valor é apenas o primeiro, «p’rá começá á negociá».

No fundo, parte substancial dos negócios em Angola funciona na base do regateio – cada uma das partes atira um valor que sabe que a outra não vai aceitar, e ambas vão fazendo concessões até que cheguem a acordo. Quando chegamos ao ponto em que já gastámos de mais e usamos o argumento de que já só restam trocos, ainda nos perguntam quanto temos, tentando vender qualquer peça pelas últimas notas que sairem do bolso. E, mesmo que nos limpem a carteira a meio do corredor, é garantido que ainda vamos ser abordados em cada banca até ao fim.


Um casal de pensadores e um mini-elefante já cá moram.


Juntamente com as imagens do Pai e da Mãe em versões máscara e lua.

domingo, 24 de agosto de 2008

Arrumar a casa

Os ocidentais que aqui chegam ficam impressionados e, muitos deles, incomodados com a quase anarquia que milhões de Luandenses foram reforçando, na sua ânsia de perderem o mínimo de tempo com aquelas coisinhas chatas do dia-a-dia, como respeitar filas, um duplo traço contínuo ou um semáforo vermelho, e atravessar a rua nas passadeiras.

A "arrumação da casa" angolana não se apoia apenas nas obras de grande vulto, como vias de comunicação ou infra-estruturas básicas, passa também por disciplinar a mole humana. Nas últimas semanas, algumas artérias assistiram à colocação de separadores centrais capazes de dissuadir o candongueiro mais atrevido (falta a Revolução de Outubro, caraças!), e surgiram igualmente barreiras para dificultar a vida aos peões que não atravessam nos locais devidos.

Mas tudo isto é secundário quando comparado com um problema de saúde pública: a atitude "despreocupada" com o lixo. A mensagem que se tem tentado passar é a evidente, e em linguagem que o povo entenda:



Não será uma batalha fácil. Há uns meses, ouvimos uma notícia de rádio, segundo a qual uma equipa de recolha de resíduos tinha limpo um bairro, e ao regressar dias depois deparou-se com um novo monte de lixo no sítio do costume. Os ânimos entre moradores e funcionários exaltaram-se, e levou na cara quem estava em minoria...

Além da preguicite não ajudar (tal como acontece aí no rectângulo na altura de separar vidros, plásticos e papéis para os ecopontos, não é?), muito boa gente mantém, com o lixo, a atitude de há décadas atrás, quando este se resumia a restos de frango (ou outros) e a cascas de frutas e legumes: atira para o monte e espera que ele desapareça. E ele, naturalmente, desaparecia. O problema é que as latas de refrigerante e embalagens de plástico não. Há umas semanas atrás, na procura do caminho para a Barra do Dande, acabámos às voltas no meio de um mercado de rua, cujo pavimento era composto por um suave tapete de chinelos usados e garrafas de plásticos espalmadas, ao ponto de não se ver o chão! É lógico que os comportamentos terão de mudar, ou as populações mais pobres, que acham natural terem os tornozelos atolados em lixo, em breve estarão atoladas até ao pescoço.

Não é a primeira vez que achamos que um dos aspectos que mais nos vão marcar nesta passagem extra-europeia, é aumentarmos a nossa consciência do que estamos todos (mesmo TODOS, à escala global) a fazer à nossa casa, varrendo o muito que fazemos para debaixo do tapete. É que o que temos visto é apenas uma amostra, e a população de Angola até é pequena...

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Obras


Costuma-se dizer que não há fome que não dê em fartura. Depois do episódio em que fomos "aCtuados" por estarmos em "transgreNsão" (pelo menos segundo os documentos que nos foram emitidos), não tivémos de esperar muito mais até nos chegarem à mão os passaportes. Sinto-me inchado. Em vez de um "vulgar" visto de trabalho, temos os mui nobres Vistos de Reconstrução Nacional. Não, isto não quer dizer que vamos andar a manobrar máquinas da Odebrecht ou de uma das construtoras chinesas que aparecem a cada canto e esquina. Muito pelo contrário, este é um visto VIP, com "status". Só lhe falta o símbolo da Mercedes, ou algo do género.

Angola precisava desta reconstrução. Faltavam - e ainda faltam, claro - habitações e vias de comunicação. No centro não há muito espaço para mais tectos, por isso os novos espalham-se pelos arredores. Os transportes ferroviários têm ganho expressão, mas algo timidamente, e provavelmente o panorama só mudará no dia em que se aumentar a gasolina para 100 Kwanzas por litro (a população era capaz de ficar "chateadinha", mas uma medida deste género faria maravilhas no trânsito...). Até lá, há que reparar os bocados de estrada à volta dos buracos da capital.

Confesso que fiquei surpreendido com a rapidez com que se actuou (sim, queria empregar o verbo «actuar», não o verbo «autuar»...) no caso do buraco da Rua do Laboratório de Engenharia. Passavamos por ele diariamente, e foi com uma rapidez impressionante que o vimos crescer desde a meninice de um buraco em que se passa em 1ª para não lixar uma jante, até um buraco adulto capaz de engolir um carro que não o contornasse, com respeito. No dia em que se fez homem, o "nosso" buraco foi imediatamente visitado por uma equipa, que precisou de pouco mais de uma jornada de trabalho até restabelecer a normalidade. Mas, uns 100 metros ao lado, outro pedaço de chão foi abatendo com o peso dos carros, e lá voltou a equipa. Conclusão: as reparações são rápidas, o problema é que há muitas para fazer.

Mas nem tudo me merece elogios, Senhores. É verdade que há centenas de ruas de Luanda que merecem um novo tapete de alcatrão. E ainda bem que repararam nisso. Ora bem, eu deixava uma sugestão para o futuro: que tal não começarem por esburacar as que ainda estão mais ou menos boas? Hein? Até era fixe, né? Eu sei que engenharia de estradas e buracos não é a minha área de especialização, mas as minhas costas dizem-me que os locais prioritários não eram bem aqueles... No entanto, se não concordam com a observação não me levem a mal, digam-me apenas «pshcala-te», e eu falo do tempo. Tem estado porreiro, nem frio nem calor.

Sucede, apenas por acaso, que as ruas escolhidas para a intervenção têm, habitualmente, um trânsito enervante. Com filas de trânsito suprimidas, bermas recortadas, candongueiros a ultrapassar pela contramão (espera, isto é todos os dias, não apenas quando há obras), o trânsito evoluiu para a condição de infernal. Entendo por infernal demorar mais de hora e meia para percorrer 4 quilómetros.

Cereja no topo do bolo: para não se cortar completamente a circulação (o que só seria viável ao fim-de-semana), optou-se por não fazer circular as máquinas durante o dia. Resultados: primeiro, as obras duram o dobro do tempo; segundo, o Afonso não dorme (e não será certamente o único na rua). Mesmo durante a noite, a equipa não é muito extensa, e temo que as ferramentas que deram aos chineses sejam as colheres com que eles comem a taça de arroz que lhes é servida ao fim do dia. Ou pauzinhos... Ok, não tenho especial admiração pela eficácia do trabalho do país dos maiores copiões do mundo.

Na verdade, se Angola pudesse levar a cabo a reconstrução nacional sem recorrer a mão-de-obra estrangeira, fá-lo-ia. No caso de técnicos superiores, talvez seja possível daqui a alguns anos, já que existe vontade de absorver know-how. O angolano não é nada parvo, e a classe que teve acesso a instrução tem visão a longo prazo. O aborrecido é terem necessitado de importar trabalhadores braçais quando existe tanta malta nova com saúde, cujo "emprego suado" é rodear um carro de um branco quando este se prepara para sair pela manhã, a pedir (perdão, a EXIGIR) dinheiro porque o carro foi controlado durante a noite. Beeem... comparando com a cara-de-pau destes, os "abana-braços" de Portugal são uns meninos de coro! Os que me ajudam a não amarrotar os carros dos vizinhos com a banheira, ainda merecem algum crédito; agora, a malta que me aborda quando me preparo para abandonar o local são o quê, os "desarrumadores"? «Logo não pões aqui o carro, que esta rua é nossa», avisaram-me. Ah é deles? Curioso, não os vi de picareta na mão a contribuir para as obras... Sou mesmo distraído.

Mais uma sugestão para os Senhores: agarrem nesta rapaziada que tem bom couro, uma enxada a cada um, e um batatal para se entreterem e fazerem algo para o bem de todos (a começar pelo deles). Vontade não vos falta? Pois, imagino.

sábado, 21 de junho de 2008

Multimedia


«And now for something completly different».

Se, até agora, a cor deste estaminé resumia-se ao preto, vermelho e amarelo da bandeira de Angola (agora em tons ligeiramente desvirtuados mas que não ferem tanto a vista...), chegou a altura de vos presentear com imagens.

Antes mesmo de colocarem os cintos não se esqueçam de trancar o carro! Carreguem no play do "cantante", ponham-no bem alto...










... e comecemos então a visita guiada.



Eu tinha avisado que a distância entre os carros varia entre muito pouco e quase nada, mas não se assustem. Está (quase) tudo controlado.






Maternidade Lucrécia Paim, ex Maternidade da Sagrada Família. Está a ser expandida com a construção de uma torre, mas o edifício que nos interessa é este, porque foi exactamente aqui que a Paula nasceu.










Do outro lado da rua, a Igreja da Sagrada Família.






Largo Rainha N'Jinga, com o Mercado (coberto de publicidade), o Edifício da Cuca e a mui turística estátua da Rainha. Vêem aquele arranha-céus inacabado lá ao fundo à direita? É conhecido como o Prédio da Lagoa porque, já depois de erguido, concluiu-se que estava sobre... isso mesmo, era óbvio, não era? Como podem observar pela roupa pendurada, apesar das condições, é habitado.






A estátua da Rainha N'Jinga.














Noutro Largo (1º de Maio), outra estátua, esta de Agostinho Neto.






Continuando no mesmo tema, eis o Monumento às Heroínas Angolanas (Lucrécia Paim, Deolinda Rodrigues, Engrácia Santos, Teresa Afonso e Irene Cohen).






No extremo nordeste da Avenida Marginal, o edifício do Porto de Luanda (e, já agora, uma amostra do parque automóvel da cidade).






Mais a oeste, na mesma avenida, o edifício do Banco de Angola.






Palácio Dona Ana Joaquina.






Hospital Josina Machel - Maria Pia.






Os elevadores do 1º prédio onde morámos. Não, tudo bem, vamos a pé...






Só falta a bola de ferro no tornozelo, mas pelo menos assim estávamos (um pouco) mais seguros.






A rua onde morámos (Presidente Marien Ngouabi, ex Rua António Barroso), na Maianga.






A vista que tinhamos à hora do pequeno-almoço (6:30).






Curiosamente, a vista das traseiras consegue ter mais motivos de interesse do que a da frente da rua (ignorando o musseque lá atrás, claro).






Do mesmo sítio vê-se o Mausoléu Agostinho Neto.






E ainda a Ilha de Luanda (que a intervenção humana transformou numa península).






Na entrada da Ilha, o último monumento desta jornada, em homenagem à mulher peixeira.






Por falar na mulher peixeira...








Frutas e legumes, galinhas, panos, bebidas... Isto é só uma amostra, a lista é infindável.




E os números de equilibrismo com o puto de meses embrulhado nas costas, hein? Vá lá, desta vez foi só um alguidar com fruta, às vezes são botijas de gás.






A vista da casa onde estamos agora não tem grandes motivos de interesse (no Aerograma do Afonso podem ver o Hotel Katekero em 1970 e no que se tornou actualmente). Mas, felizmente, parece que conseguimos travar a porta de entrada destas duas espécies... :D



(desenhos de Henrique Arede)

E pronto, esperamos que tenham gostado das fotos.

Já acabaram de ouvir o Duo Ouro Negro? Podemos dar-vos mais música? Então cá vai um estilo que parece ter bastante saída, a balada-tipo-canção-do-bandido: eu sou fiel baby, não ligues ao que esses intriguistas dizem, só querem destruir o nosso amor, blá-blá-blá. Tendências poligâmicas do macho africano? Talvez, mas o Anselmo Ralph tem estilo e merece ser ouvido no hemisfério Norte, por isso cá vai uma ajudinha. De um blog em Luanda para um supermercado que nós conhecemos em Queluz vai ser um pulinho. ;)







Para acabar, convidamo-vos a verem o video dos Buraka Som Sistema, filmado em Luanda, e no qual podem ver algumas imagens da cidade. Electrizante é pouco. Disfrutem!




quarta-feira, 11 de junho de 2008

Ambiente


> A (de algo-que-nos-tem-feito-bastante-falta-nos-últimos-tempos)

Perguntava-me há dias o nosso colega o que deve trazer na bagagem, quando se juntar a nós no próximo fim-de-semana. Pois bem, cá vai a resposta: traz alforges com água! Traz um bidom! Traz a piscina do Lopes! Traz canos novos para a Ingombota, que os destas ruas devem ter dado o p... mestre! Então não é que, contra o que é habitual, agora que estamos numa altitude mais próxima de zero, é que a sacana da água se lembra de falhar dia-sim-dia-sim? Nos últimos dez dias nunca tivemos água nas torneiras por mais de 24 horas seguidas, o que é digno das emissões da RTP no início dos anos 80 - «pedimos desculpa por este programa, a nossa interrupção segue dentro de momentos». Ainda por cima, como nos primeiros dias o urso (eu) chegava a casa e, em vez de aproveitar enquanto a água ainda corria, ia enviar uns ficheiros para um cliente (porque a net caseira é mais rápida do que a da empresa), quando chegava à banheira, nas torneiras já só havia ar.

> C (de 5 de Setembro)
Já se sabia o mês, mas todo o país aguardava ansioso pela data exacta das eleições em Angola. Pessoalmente, só estávamos à espera de saber se seriam no início ou no fim de Setembro, para marcarmos as férias, e ao que parece não seremos os únicos. Na política e no futebol, nunca se sabe como reagem os adeptos que vêem a equipa rival marcar mais golos. Pelo sim pelo não, quem não liga a este jogo não quer estar perto do estádio.

> D (de Dinheiro)

Já o tinha referido há uns tempos, mas volto a dizer: o Kwanza não é nada prático. Há umas semanas dei por mim a pensar que, se fosse substituído por um "novo Kwanza", numa proporção de 1 para 100, Angola ficaria com uma divisa mais compatível com o custo de vida, e também com o principal termo de comparação, o dólar. Qual não foi o nosso espanto quando descobrimos que já foi feito algo do género por mais do que uma vez, e não foi assim há tanto tempo!

O problema não é só o baixo valor da moeda, é principalmente o das notas emitidas (as maiores que conhecemos são as de 2000). Um destes dias, aguardávamos pacientemente a nossa vez de pagar as compras do supermercado, e vimos que a família à nossa frente tinha uma despesa de cerca de 40000 Kz. Eis que a matriarca saca de um maço de notas de 2000 e de 200, e começa a entregá-las à moça da caixa que, pela expressão facial, ficou com a cabeça em água perante tamanha dose de papel. Para entenderem melhor, imaginem que vão ao supermercado e pagam uma despesa de 400€ com notas de 20€ e moedas de 2€... Imaginem também uma caixa multibanco cheia de notas "pequenas" e calculem em quanto tempo fica vazia.

> E (de Ecologia, Economia, Energia, etc)
Se há situações - trabalho, trânsito, pessoal que usa expedientes para obter uns rendimentos extra, ou que arranja desculpas para adiar os seus compromissos - em que encontramos vícios semelhantes em Portugal e Angola (com a ressalva de que os maus vícios estão mais vincados neste quadrado do que aí no rectângulo), por outro lado há aspectos em que não parece que estamos no mesmo planeta.

Em Portugal, à semelhança de outros países não produtores de petróleo, bastou um mês e uma subida brutal no preço dos combustíveis para o dia-a-dia ficar virado do avesso. A indignação dos particulares e o boicote às principais gasolineiras são até secundários, quando comparados com a greve de camionistas que pôs em causa a distribuição de combustível e alimentos. Desta vez, nem o futebol faz o povo esquecer a crise. Começamos a duvidar se, quando voltarmos ao país de onde saímos há escassa meia-dúzia de semanas, o vamos reconhecer. E, por um lado, ainda bem; a escalada dos preços é dura, mas a mole humana parece que só aprende a deixar de ser burra e esbanjadora quando tem "dores no bolso" (e alguns nem isso, veja-se o caso do pessoal que andou a fazer rateres como forma de protesto).

Num país em que a gasolina custa 4 vezes menos, a preocupação com o consumo e as emissões poluentes é ZERO! O parque automóvel é dominado por furgões com vinte anos e jipes de grande porte e alta cilindrada que, num pára-arranca infernal, gastam facilmente 20 litros por 100 Km. As falhas de energia são compensadas por um número indeterminado geradores que funcionam - adivinhem - a gasóleo. Já contávamos que aqui não existissem conceitos como separar lixo, apagar as luzes durante o dia, utilizar lâmpadas economizadoras ou pilhas recarregáveis, mas quando há dias demorámos 15 minutos para percorrer 200 metros, pesou-nos na consciência o mal que estávamos a fazer ao planeta. E, apesar de o sentimento de culpa nos ter feito desligar o carro até que a fila se arrastasse (o que ainda demorou), não pudemos deixar de pensar que aquilo de pouco servia, quando à nossa volta havia dezenas de motores a queimar combustível para nada. É bom saber que já não vai ser preciso esperar muitos anos nem ter muito dinheiro para ter um meio de transporte destes (basta uma garagem para o carregar à noite e 17000€ para o ir buscar ao Reino Unido ou à Suíça). Quando voltarmos, prometemos redimir-nos dos pecados que estamos a ser obrigados a cometer.

> F (de fins-de-semana e de feriados)
Primeira nota informativa: feriados que calhem ao domingo (o que aconteceu em dois fins-de-semana seguidos, recentemente) são gozados à segunda-feira. Antes que comecem os comentários, fiquem também a saber que a semana de trabalho em Angola é de 44 horas.

Ao fim-de-semana Luanda é outra. A operação começa na 6ª à tarde, quando se formam filas monstruosas para levantar dinheiro (antes que esgote, o que pelos motivos apontados atrás, não é difícil). De 6ª à noite até que o sol se põe no domingo, há decibeis no ar, Cucas nas gargantas (há dias vimos um pequeno grupo empurrando dois carrinhos do Jumbo com exactamente 28 paletes, ie 672 latas, ie 224 litros!), menos engarrafamentos, e menos pessoal a furar as filas e a pisar traços contínuos. Ora, se há menos prevaricadores, o critério da operação stop é quem-tem-cara-de-estar-com-a-carteira-cheia.

> F outra vez (de Fotos)
É já no próximo post, eu prometo...