Semanas depois dos passeios da Cabala e da Muxima, continuámos em frente no entroncamento de Catete, tomando as indicações para o Dondo, onde o Afonso já tinha ido a trabalho.
As fotos que ele mostrou deixam antever que esta cidade merece uma visita de várias horas, o que obrigará a madrugar na partida de Luanda, até porque a distância é maior e ainda há troços a ser pavimentados pelos chineses. Pavimentados, mas pouco, com uma camada de alcatrão demasiado sumítica, que pouco depois de aplicada começa a desaparecer. Qualquer semelhança entre uma obra chinesa e uma bugiganga qualquer comprada numa loja deles não é uma mera coincidência. Ainda há quem não tenha percebido que o demasiado barato não pode ser bom.
Mas o destino deste passeio era outro, seguindo a sugestão do Afonso, que tinha encomendado um carro a um menino de Massangano, e que pretendia pagar com um conjunto de lápis de cor e um livro para colorir. Massangano é mais uma povoação nascida nas margens do Kwanza. Não existe placa, pelo que o primeiro ponto de referência para deixar a estrada principal é um par de chaimites abandonadas após o fim da guerra.
Numa curva da estrada secundária, somos brindados com uma varanda sobre o Kwanza, capaz de nos arrancar comentários com muitos pontos de exclamação.
A 50 metros, duas mães esmagavam amendoim à sombra de um embondeiro. Tarefa demorada? Pois, «a pedra é pequena».
Adiante, outro desvio da estrada é assinalado por uma série de acácias que, em Dezembro, se decoram de vermelho para assinalar o Natal.
Chegámos. Vê-se menos gente nas ruas do que na Cabala, ponto de paragem por causa da travessia do Kwanza, e do que na Muxima, capital religiosa. Sente-se o efeito psicológico de estrada sem saída, que acaba no rio e deixa os habitantes da povoação longe da "civilização." Mas a presença de mais elementos herdados do tempo colonial, e o facto de preencherem uma área considerável, leva-nos a crer que esta terra já conheceu outra grandeza.
Encontrar um adulto não é imediato, mas não faltam crianças. As meninas treinavam para o que as espera quando tiverem um marido, o que há-de acontecer poucos anos depois de se tornarem férteis: dentro de um pequeno tacho, o peixe fisgado no Kwanza ganhava a cor do óleo de palma e o calor da fogueira improvisada. Ao lado, noutro tacho, coziam arroz com feijão.
Meninas e meninos esqueceram as brincadeiras quando viram chegar três brancos com máquinas fotográficas. Em poucos minutos perderam a timidez e, quando um deles percebeu que as máquinas permitem ver as fotografias depois de tiradas, ficaram eléctricos, querendo ver como ficavam, «este aqui sou eu». As mais velhas, de 11 e 12 anos, já com a vaidade a despontar, faziam pose e enxotavam (em vão) a concorrência, exigindo ser o centro das atenções.

Fiz-lhes a vontade por uns tempos. Não ficaram saciados, mas acabaram por não ter remédio senão acompanhar-nos no passeio pela povoação. Um dos rapazitos, de 7 anos, deu-me a mão no caminho. Dei por mim a pensar se o rapazito teria falta de uma figura paterna e, à pergunta do Afonso se preferimos a Muxima ou Massangano, naquele momento não consegui responder. Em poucos minutos o sacaninha desfez-me as dúvidas: ainda que timidamente, chamou-me cota e fez aquele gesto universal de roçar o polegar pelos dois primeiros dedos, como que a cravar trocos. Ora, eu lido muito bem com o meu cabelo grisalho precoce, e não foi o adjectivo que me deixou piurso, por isso fiz-me desentendido. Em breve voltou à carga: «cota, dá um dinheiro». Olha-me o pingente, hein! Para que é que ele queria o dinheiro, ele já saberá fazer contas, sequer? Ainda se pedisse uma bola (uma das meninas, à despedida, pediu uma boneca)...
Foi o único, porém, e a Paula trouxe histórias mais bonitas para contar, envolvendo o menino e a menina mais novos do grupo, mais cativados por ela do que pela máquina fotográfica. Ele, que com 4 anos possivelmente nunca tinha visto um branco, passava-lhe a mãozita pelo rosto como a descobrir algo completamente novo:
- Os láábios... o nariiiz... É mulata?
- Não... Sou branca.
- Ah...
Mas com a Mónica (a pequenita de cuecas cor-de-rosa e umbigo inchado que na foto abaixo ignora o fotógrafo e olha admirada para a “madrinha”) houve um amor correspondido à primeira vista.
No passeio a pé pela cidade, agarrou-se à saia da Paula, que lhe deu a mão. Sentada à porta da igreja, encostou a cabecita a ela. E, depois da forasteira ter perguntado o nome de toda a gente, foi a única que quis saber o nome dela:
- Como chama?
- Eu sou a Paula.
- De quê?
- Paula F[...]. E tu, és a Mónica de quê?
- Eu sou a Mónica da Ju'iana.
O diálogo era surpreendente. Uma criança pequena, numa povoação esquecida a dezenas de quilómetros da povoação vizinha, com tamanha noção de identidade e de família?! Este episódio deixou um jovem casal português a bater um bocadito mal durante dois dias e duas noites mal dormidas, durante os quais "sonhámos" em recompensar aquela doçura e aquela sensibilidade com a oportunidade de conhecer o mundo fora de Massangano..
Então e... se a malta fosse lá e “roubasse” aquela menina? Hum? Bora? Vamos lá e trazemo-la connosco, boa? E os pais? Ah, os pais querem lá saber da filha, só querem saber do dote que vão receber por ela.Sosseguem: sabemos que mesmo que fosse aceite na sociedade Massanganense, seria ilegal no resto do mundo; era apenas um devaneio. Além de ser uma fantasia irrealizável, trazê-la para a “civilização” seria de facto uma recompensa? Ou um castigo? Então e oportunidade perdida de brincar com os pés descalços na rua sem cortar os pés num caco de uma garrafa? E quando crescesse e confrontasse os objectivos estabelecido na fasquia “ocidental” com as metas que as pessoas normais conseguem realmente ultrapassar? Naquela povoação, ela é apenas uma menina que aos 14-15 anos será entregue para casamento, aos 18 provavelmente já terá dois filhos, e cujas contrariedades na vida serão o tamanho da pedra com que esmaga o amendoim. Na Europa, enriquecer-se-ia com conhecimento, desejaria tudo o que os outros desejam (o príncipe encantado, uma carreira, uma casa, os
gadgets da moda) e sofreria com tudo o que não conseguisse obter. O que pensarão as crianças africanas que conquistam o coração dos ocidentais, quando são levadas para os países deles e crescem segundo as regras deles? Ficar-lhes-ão gratas, ou com raiva deles por lhes terem roubado um futuro que pode não ter aspirações mas também não terá desilusões?
Ainda não voltámos lá, e não sabemos se alguma vez o faremos. Não queremos correr o risco de ficar a "bater mal" de novo.
Como estará a Mónica? O que será que recebeu neste Natal?